Li num dia desses na imprensa que o Patriarca da Igreja Copta etíope declarou que a arca da aliança estaria naquele país africano.Houve um burbirinho e não só entre os judeus. Tem muito cristão que tremeu de alegria, afinal, damos tudo por uma relíquia religiosa pois a propensão à idolatria é marca registrada da alma humana.
Vá gostar de adorar um símbolo, um íconesinho, qualquer que seja, lá longe. Só de lascas da cruz, comercializadas, colecionadas há anos atrás, dava para a humanidade construir uma para cada habitante do planeta.
É assim: Deus trouxe leis para guiar, para orientar, para por ordem na bagunça, dar balizas sociais ao povo e pronto: como quem admira a moldura ao invés do quadro, passou-se a valorizar a letra mais do que o seu espírito e, ao invés dessas servirem ao homem, ao seu bem estar e à paz na vida em sociedade, usaram-na para oprimir e escravizar.
E foi sempre assim. Ao invés de adorar ao que não se vê, é mais fácil desenhar algo que imaginamos, uma estatuazinha e pronto. Já podemos ver e tocar - e até carregar no bolso Aquele que nos criou (Freud deve explicar essa coisa toda quando tratamos Deus como qualquer coisa, do que fazemos o que queremos e, ao invés de nos movermos por Ele, carregamo-Lo por onde e do modo que entendemos).
Há os que matam o cônjuge, só para salvar o casamento. Para preservar a instituição, faz-se de tudo, até arrebentarmos com o parceiro. Estes, casaram-se não um com o outro, mas com o casamento em si. Para defender a fé, mata-se o contrário, o que tem convicções diferentes. E pior: fazemos isso em nome de... Deus!
A igreja, a instituição, que era para ser um organismo, vira organização, estrutura, e vale mais do que o povo que dá corpo à coisa, tornada um monumento, rígido, estático, imóvel, frio, sem vida e... opressora, que mata os seus membros para manter-se de pé.
Desde sempre, o propósito é outro: Deus procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade. Que o busquem, que gastem tempo consigo e com Ele andem. Vendo-O ou não, ouvindo Dele orientações claras ou não. Na luz ou na sombra da morte.
Andar pela fé, tem a ver com isso: crer no que não se vê, mas que se conhece apesar dos olhos não enxergarem, as mãos não tocarem. Não é fácil, nem cômodo. Mas por certo, é maior e mais profundo pois não nos deixa à mercê da nossa limitada e rasa visão da vida.
Assim, sem que O reduzamos a um pedaço de gesso, pau, pedra... ou às paredes de um templo que podemos construir com as mãos, podemos abrir as nossas mentes e coração para o tamanho que Ele tem - imensurável e transcendente. Ou então transferir à criatura, líder, apóstolo, bispo, pastor,... seja o nome que isso tiver - pretensamente dotada de procuração do Altíssimo - toda a devoção e submissão só devidas ao Senhor. É bem mais fácil. Como é fácil, carregar uma imagenzinha safada no bolso ou tê-la nas mãos.
Como aliás vimos não só na história da igreja cristã como nos nossos dias...
"...Eu derrubarei este templo, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, não feito por mãos de homens." Mc 14:58

